Onde e como ficarão os desenhos das casas que não deram certo? 

Exposição sobre estado(s) de Mãe Joana, a partir de Cortázar e Schwanke 

Era uma vez... uma casa

Quais seriam seus destinos?
Se as casas não deram certo, quem "sequestrou" seus desenhos?
Onde — e como — ficaram?
Se estar com ou nas casas não deu certo, o que realmente aconteceu com elas?
Se alguém as tomou, quem foi?
E, afinal, qual o interesse em ocupar casas que não deram certo?
Essas possibilidades existem?

Bom… há que se tentar explicar — ou melhor, "desenhar";
mesmo que, hipoteticamente, se alguém (ou algo?!) esteja 'despersonalizado, desrealizado', 'esquizofrênico', dentro ou fora da caixa; ops, casa.

Elucidar os mistérios sobre essa(s) tomada(s) talvez passe por cruzamentos narrativos sobre desejos inconscientes recalcados — ponto central desta história.
Se não fosse trágico, seria fantástico — quase ao estilo de Cortázar.

Do real e mental à 'volta' pra casa 

A casa, em seu sentido literal, ocupa lugar, espaço de proteção; ao mesmo tempo, no simbólico, torna-se local onde a natureza, pertencente ao campo psíquico, resida enquanto casa mental.

Inspirado em Cortázar, Schwanke e outros, arrisco pensar que tais casas podem ser descritas de maneira enriquecedora quanto à arquitetura, ambientes, cômodos e jardins.
São escritores, artistas, estetas… pesquisadores que, metaforicamente, abrem (e fecham?!) portas para mostrar fundamentos, alicerces, distribuições, circulações e modos de vida — aproximando paralelos entre matéria e subjetividade.

Mesmo aparentemente organizadas, suas bases podem se desestabilizar e ruir.
Se outrora a casa representava apenas porto seguro, torna-se mister observar que, há muito tempo, nunca haverá quem a detenha completamente.

Das casas humildes às mansões, das ostentações à necessidade de alugar moradias, as redes humanas são complexas.
Hoje, é possível "alugar um triplex na cabeça de alguém".
Sem contar que existem inúmeros imóveis fechados, abandonados, enquanto vidas dormem ao relento.

Formam-se "condomínios de luxo", refúgios para quem vive à margem dos privilégios. A casa reflete o indivíduo e sua cultura, mas também pode expor suas fraturas; sendo palco de competição, ganância e ódio.

No primeiro universo, a casa dos sonhos, não precisa ser só a das dívidas;
elas podem abrir portais para o céu ou inferno.
Dependendo das escolhas, das pílulas lançadas e dos jogos humanos, portas se abrem e fecham, definindo frestas, aberturas e clausuras, conforme zelamos nossos espaços e relações.

Inventários

Desejo, medo, (des)amor, visitantes e indesejáveis
talvez possam se tornar "mobílias" nesses 
locais.  

São casas enquanto sinônimos de degradação ou refúgios, transformando seus cômodos escuros, gélidos e úmidos em lugares de sobrevivência.

Entre moradores submersos em sonhos, vontades e frustrações, cada qual dissimula seus sentimentos, até que golpes abruptos derrubem suas casas.

Câmeras, sensores, fechaduras e cercas elétricas visam segurança;
já que transtornos podem ocorrer, exigindo atenção e revisão constante.

Se designar espaços corretamente, correlações ocorrem de forma mais brandas. Liberdade para si e para os outros permite materializar desejos. 

Vozezinhas perturbadoras permanecem, mas podem ser discutidas em casas de terapias. 
A fuga da realidade sem reflexão leva à ilusão do sucesso a qualquer custo.   

Casas (des)apropriadas, ciclos... (re)aproximações

As casas sentindo-se ameaçadas podem abrir rachaduras, fendas, sulcos entre áreas habitáveis, seja por aquisição, empréstimo ou tomada. 

Paredes, divisórias, portas e janelas podem simbolizar parâmetros incomunicáveis. Transformar casas em portos seguros significa reconhecer a necessidade de que habitantes conduzam o espaço, redirecionando rotas. 

Guarda-se o que foi tomado em sótão, subsolo ou porão; limpos, arejados, expostos ou descartados, doados ou vendidos.

O silêncio nem sempre é paz; 
um lago calmo pode ter jacarés. 
Paredes têm ouvidos; assombros sutis acontecem, sem extintores ou seguradoras. 

Até que de forma abrupta, a casa cai!
Tocas de ratos podem ser saída de emergência.

Casas podem emaranhar-se revelando-se entre elas mesmas, suas próprias identidades; o que justifica a necessidade de câmeras, sensores e senhas às suas seguranças.

No passado, moradas eram lugares aprazíveis, ágeis, altruístas; características de grandes mansões.                              
Com o passar do tempo, à medida que o volume de casas aumenta, arranha-céus invadem o espaço um do outro.    Estruturas imponentes encolhem, tornando-se iglus. 

Pequenos inconvenientes alteram suas retinas, gerando diagnósticos: stress, transtornos.                                           
Casas-humanas adaptam-se a tudo, sempre.

Encostos e vozes 

À medida que são tomadas, casas se aproximam ou se distanciam, provocando ciclos de "redenção", frustração e/ou isolamento. 

Infantilizadas — "birrentinhas"      trancafiam-se umas sobre as outras. Eletrecutadas, tornam-se perigos eminentes; algozes em potencial.

Liberdade para si e para os outros permite materializar desejos.                                   
Se as vozes perturbadoras permanecerem, podem ser "convidadas à conversar" nas terapias.

Mesmo que infelizes invadam sua própria casa e tomem as demais, deixando cidades sitiadas, sempre existe a possibilidade de recolhimento, resiliência e reexistência.

Jardins e camas podem, um dia, ser desfrutados; por hora, restam apenas ervas daninhas e flores esparsas, cultivadas entre capins e/ ou... cupins.

Casa dos desejos

A casa pode ser a morada simbólica das utopias (in)alcançáveis.                          
"Casa Tomada" pode ser reinterpretada sobre: o quê, onde, quando, quem e por que houve sua tomada?                

Avaliadores e escriturários decidem sobre reconstrução, demolição ou transporte. Mudanças exigem atenção: residências reais e metafísicas coexistem.
Casas astrológicas podem indicar saltos para a "hat residence" ou para a abrupta ordem de que se vá para a "casa de um senhor fálico".

Casas 'docilizadas': sonoridadades, poesias... filosofias

Foram, são e serão facilmente ("naturalmente") domesticadas.

Nelas — e entre elas — o hábito se cristalizou: transitar com destreza de um espaço a outro; entre campos minados.
 
As casas se adaptam ao ambiente tóxico, criando hábitos de trânsito entre espaços, às vezes compartilhando alimentos, às vezes almoçando sozinhas.

Sarrafos

Óbvio que certos almoços são as próprias casas; afinal, 'a vingança' é um prato que, também, se come... e frio — certificando e disseminando apenas os (nem tão) sutis estranhamentos em olhares furtivos entre portas e frestas das mesmas (?!).

Trágicos humores de humanos sobrepondo-se a humanos, antropofagicamente —                devorando-se uns aos outros, por mesas e cadeiras (voadoras?!) — pois o que vale é a confraternização.

Arremates

A vida das casas é feita de ciclos, tomadas, reaproximações, isolamento e resistência. Elas guardam desejos, frustrações, histórias... estórias e pequenos gestos de nós mesmos — reais, metafísicos ou simbólicos. Como se Cortázar e Schwanke ainda estivessem a sussurrar
por entre portas e janelas:                     
cada casa... um enigma...                  algumas... novelas, vielas...
outras... piscadelas! 😉

Leminski?!

Como se ele, em quartos, ruas e haikais suspensos, espreitasse as casas tomadas, permitindo-se ouvir vozes entre portas e janelas através do jogo de pausas, reticências e silêncios.

Mesmo distante, o poeta respiraria e habitaria este espaço, onde cada gesto mínimo ressoaria e cada pausa acenderia um lampejo, convidando à contemplação dos sentidos. 
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Imagem: Haja luz! E houve ...Sir Swan!
2022 
Grafite sobre papel
30 X 42

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